“Anjo negro” e o racismo brasileiro no teatro online

“Anjo negro” e o racismo brasileiro no teatro online

Tempo de leitura: 6 minutos

Fonte: oglobo.globo.com

Numa madrugada da Cidade do Rio de Janeiro, fumaças de velas apagadas se espalham suavemente pelo ar. Durante uma manifestação religiosa afro, mulheres ecoam em canto: “não era moreno”, “moreninho disfarçado”, “um menino tão meigo!”, “triste!”, “é o terceiro que morre, aqui ninguém se cria!”.

Um misterioso cego chega a uma residência, onde é recebido por dois coveiros de um pequeno cemitério próximo. Lá dentro, uma criança negra morta é velada. Os coveiros, negros, avisam que brancos não são bem-vindos naquela mansão, cujas grandes muralhas foram erguidas por Dr. Ismael (Deo Garcez), um médico negro e rico. O velório é de seu falecido menino. O homem cego, Elias (Lucas Gouvêa), que é branco, declara-se meio-irmão de Dr. Ismael e diz que levava um recado de sua mãe, sobre uma maldição. Os coveiros lhe permitem entrar.

Elias é recebido como um irmão nos dois sentidos, no positivo e no negativo, por ser um irmão rival e odiado. Ele é mal recebido, mas Ismael lhe permite ficar, trancado em um aposento, por pelo menos até o amanhecer, desde que não trave contato com ninguém da casa, muito menos com sua esposa, Virgínia (Joana Silva) que é branca, muito branca.

A entrada de Elias na casa de Ismael desencadeia fortes sentimentos nos dois e em Virgínia, de amor e ódio que se formam entre eles aos pares. Revela-se a ambivalência com forte racismo no casal, racismo por todas as partes e auto racismo e machismo violento na personagem de Ismael. E também as histórias infantis de ódio entre os (meio) irmãos Ismael e Elias. A configuração que se revela é mortífera, foi mortal, tanto para o menino negro a ser sepultado, quanto para outros meninos negros desse casal que já haviam morrido e, como a peça sugere, também para qualquer menino negro que nasça nessa estrutura familiar.

Esses são pontos que, a meu ver, torna Anjo negro, de Nelson Rodrigues, adaptado pelo psicanalista e dramaturgo Antônio Quinet, uma peça que revela a forte presença mortal do racismo na estrutura familiar brasileira. A peça é parte de um manifesto de Quinet contra a presença da pulsão de morte e da intensificação que Eros faz dessa pulsão através do racismo e do machismo na sociedade brasileira.

Encenar Anjo negro é uma maneira certeira de escancarar o racismo em nossa sociedade. A peça, originalmente escrita por Nelson Rodrigues em 1946 para um ator negro (segundo Drica Rodrigues, neta do dramaturgo, presente no debate de estreia), foi censurada pelo Estado Brasileiro, que só permitiu a sua encenação por atores brancos. Para que fosse encenada preservando o elemento racista da trama, os atores precisaram se fantasiar brancos. 

A adaptação de Quinet ficou muito interessante. Ela ocorreu de dois modos. Que a censura não opere na atualidade de forma tão escancarada nos dias de hoje, permitiu que Quinet fizesse justiça à peça, convidando ótimos atores, negros e brancos, para contracenar entre si, salientando o aspecto inter-racial da sexualidade que permeia a trama, que, ao que parece, é um aspecto do racismo brasileiro.

A psicanalista Margarida Lucinda, durante o debate após a apresentação do dia 6 de novembro, destaca da peça um imperativo superegóico de nossa sociedade racista: “ele é negro, então ele é matável”, adicionando, desse modo, uma visada, pela “psicologia da imago” em interface com a psicanálise, situando que a peça permite interrogar como uma injunção como essa pode marcar, desde a infância, os lugares ou papéis da mulher e do negro. Injunção da qual pode ser aproximada a fala de Elias para Virgínia, situando o branco, ainda que virtualmente, como matável: “e se ele for branco, ele também vai morrer?”. Isso reforça, a meu ver, o quanto a pulsão de morte circula na estrutura social brasileira, pela possibilidade da morte ser provocada pelo outro familiar.

Para Lucinda, essas são questões ligadas à transmissão das representações sociais, dos papeis imaginários que uma cultura como a nossa, ligada a um “racismo estrutural”, sustenta.

Podemos acrescentar que essa transmissão se liga ao modo como o superego se constrói no modo como cada um e cada estrutura familiar se situa discursivamente. No caso do racismo, do machismo e dos preconceitos contra indígenas, trata-se do modo como cada um é afetado pelas diferenças “raciais” ou de cores de pele e, principalmente, sexuais, isto é, entre homens e mulheres. Por isso, como diz Lucinda, as diferenças “raciais” e sociais são algo de que a psicologia e a psicanálise vão ser convocados a se dar conta. Desse modo, ela parece elevar o racismo, o machismo e os preconceitos contra indígenas a uma doença social, e indica, como direção para a psicanálise desses sintomas sociais, conceder voz aos negros, mulheres e índios para que a sociedade fique menos doente.

Outro aspecto da adaptação é que ela ocorre na modalidade online. Como falou o diretor teatral Hamir Haddad, no debate de estreia, Quinet “assume essa linguagem [de plataformas e recursos online, como o Sympla e o Zoom] como uma possibilidade artística”, não se deixando vencer pelas limitações que a Pandemia colocou para arte teatral. Interessante também é que essa adaptação tem ares de tragédia antiga, fazendo lembrar as de Sófocles e de Eurípides, principalmente Édipo Rei e Medéia, aproximando o antigo e o contemporâneo. A propósito, com Anjo negro, Quinet mostra mais uma vez que vem articulação bem seu trabalho em psicanálise e no teatro com as ferramentas da internet, fazendo um ótimos trabalhos, como se pode verificar na série de Lives que vem fazendo no Instagram e disponibilizadas no YouTube, principalmente sobre o tema da possibilidade da psicanálise online, e também pela reapresentação recente de Hilda & Freud.

A aposta de Antônio Quinet se articular questões do inconsciente no teatro está funcionando também de modo online.

Forte abraço,

John Walton

 

Referências:

Anjo Negro, episódio – ato 1: a maldição, de Nelson Rodrigues. Direção: Antônio Quinet. Apresentação: cia inconsciente em cena. Com Deo Garcez, Joana Silva, Lucas Gouvêa e Lucélia Pontes. Produção: Bloco Pi, Atos & Divãs Produção . Ingressos na Plataforma Sympla. Em cartaz até 20/11/20.

Outras referências:

Perfil de Antonio Quinet no Instagram. @antonioquintet.

Canal de Antonio Quinet no YouTube. https://www.youtube.com/channel/UCcrGngFzTEgM2ghhWKl-K8w

 

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